fbpx
Invista Agora

Canhões e Trombetas – O medo que guia a vida e o mercado de capitais

CANHÕES E TROMBETAS

O medo que guia a vida e o mercado de capitais

02/04/2022 • 00:00

Por Daniel Martins

Atribuída ao banqueiro Nathan M. Rothschild em 1810, durante as Guerras Napoleônicas, a frase “compre ao som dos canhões e venda ao som das trombetas” sugere que momentos de guerra seriam bons para investir.

Embora paralelos possam ser feitos entre aquele momento e a atual invasão à Ucrânia, uma interpretação menos literal do contexto específico de guerra traz lição ainda mais importante para os tempos atuais: de que momentos de estresse, seja de qual natureza forem, geralmente oferecem excelentes pontos de entrada para investidores que objetivam o longo prazo.

Isso ocorre porque, por mais racionais que possamos ser, somos a todo momento influenciados por nossos medos e emoções que nos impedem de sermos 100% racionais. E isso é verdade tanto para o indivíduo quanto para o mercado de capitais.

O medo é uma emoção primitiva, que salvou nossos antepassados do perigo e continua sendo muito importante ainda hoje. Mas a verdade é que nem todos os receios que nos afetam são reais. Pensem, por exemplo, em como nosso estado emocional pode ser afetado ao assistir a um filme de suspense. Se somos capazes de sentir medo numa situação que racionalmente sabemos ser fictícia, o que dizer de eventos que carregam algum risco real.

É neste contexto mais amplo que a frase atribuída a Rothschild se mantém atual no mundo dos investimentos. Os canhões de outrora são os atuais momentos de estresse. De medo. De nervosismo.

Talvez o mais recente “canhão” tenha sido a pandemia de Covid-19, na qual nosso medo era real e justificável. Entretanto, tal receio ocasionou um dos momentos de maior oportunidade de retorno financeiro dos últimos tempos, com deslocamentos de preços que chegaram a ser injustificáveis racionalmente, os quais puderam ser explorados pelos investidores mais atentos.

De fato, o retorno do S&P500, um dos principais índices de ações dos EUA, no período entre março/2020 (o auge do pânico do mercado) e o fim do ano passado foi de mais de 100%.

Ouviram o som das trombetas?

Isso não é um paradoxo, e nem deveria ser contraintuitivo: em muitos casos, o risco precificado pelo mercado ficou muito acima daquele que racionalmente se justificaria. Na analogia do filme de suspense, seria como se temêssemos que o vilão fosse capaz de atravessar a tela do cinema e nos atacar. Mérito para os investidores que conseguiram ponderar com maior acuracidade o risco real, explorando deslocamentos de preços que não se justificavam racionalmente.

Importante dizer que começamos o ano de 2022 com diversos outros “canhões”, muitos ainda em voga. Lá fora, inflação maior, expectativa de aumento de juros nos EUA e a invasão da Ucrânia. Aqui dentro, a expectativa de mais uma eleição bastante polarizada, num momento econômico com situação fiscal bem fragilizada. Eventos que nos geram medos reais. Não se trata de ignorar tais riscos, mas de procurar quantificá-los com acuracidade. Encontrar as divergências não justificáveis. Identificar as oportunidades, a fim de arbitrá-las.

Como já dizia Peter Lynch, um dos maiores investidores de todos os tempos, “todo mundo tem o poder cerebral para ganhar dinheiro com ações. Nem todo mundo tem estômago para isso”. O mesmo vale para os filmes de suspense Alfred Hitchcock. O que só comprova que não ter a capacidade de controlar nosso medo injustificado pode nos deixar de fora, não só de bons frutos financeiros, como também de verdadeiras obras de arte.

 

*CEO da GeoCapital

Artigo publicado por O Globo: http://blogs.oglobo.globo.com/opiniao/post/o-medo-que-guia-vida-e-o-mercado-de-capitais.html